Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) é um dos principais movimentos populares do Brasil, com presença nacional e articulação consolidada em várias regiões metropolitanas. Sua origem remonta à luta histórica por moradia digna e contra a especulação imobiliária, reivindicando a efetivação do direito social à habitação previsto na Constituição Federal. Em São Carlos, o movimento mantém ocupações em áreas periféricas, articulando demandas por regularização fundiária, infraestrutura básica e políticas públicas de habitação.

As ocupações também funcionam como espaços de formação política, convivência comunitária e acolhimento a famílias em situação de vulnerabilidade. A pesquisa pôde observar como as lideranças entrevistadas vivenciam diariamente o paradoxo de lutar por um direito reconhecido legalmente, mas raramente implementado na prática. 

As entrevistas com representantes realizadas no contexto da pesquisa “Entre a política pública e a linguagem dos direitos: compreendendo modos de subjetivação na experiência de representantes de movimentos sociais na articulação de ações públicas em áreas vulneráveis da cidade de São Carlos” evidenciam que a ocupação é concebida simultaneamente como uma resposta pragmática às condições de vida precarizadas e como espaço de produção de subjetividades engajadas. A linguagem dos direitos, especialmente o direito à moradia digna, foi recorrente, aparecendo como fundamento ético e jurídico que legitima a prática da ocupação. Ao mesmo tempo, a narrativa reconhece que a efetivação desse direito é sempre parcial e mediada por negociações: audiências com a Prefeitura, contato com secretarias e reuniões com órgãos de assistência social. Para uma das pessoas entrevistadas, a luta por moradia implica viver o paradoxo de reivindicar um direito que, embora constitucional, carece de reconhecimento prático pleno. Em outra entrevista, a ênfase foi para a dimensão subjetiva da experiência, quando, ao narrar seu percurso, a pessoa entrevista destacou que “ser parte do MTST” transformou sua percepção sobre si mesma e sua capacidade de falar em público, organizar atividades e apoiar outras mulheres. 

Formação profissional para atenção integral em saúde de populações LGBTIAPN+ (projeto de extensão)

Grupo de integrantes de projeto de extensão vinculado ao cuidado da população LGBTIAPN+ no Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no Ambulatório de Sexualidade Humana, com equipe formada majoritariamente por pessoas trans. Iniciado em 2025, a partir da aprovação de emenda parlamentar da deputada Erika Hilton, o projeto incentiva o diálogo entre a área de Saúde e a comunidade acadêmica sobre as demandas específicas da população transsexual e travesti.

O projeto nasceu de uma constatação: a ausência de formação adequada de profissionais de Saúde no atendimento de pessoas trans e intersexo, o que resulta em práticas de violência simbólica, constrangimento e exclusão. O projeto se propôs a elaborar materiais educativos, organizar rodas de conversa e desenvolver atividades formativas, associando financiamento público (por meio da emenda parlamentar) e articulação com setores internos da Universidade.

Diferentemente de outras iniciativas que atuam apenas na dimensão assistencial, este projeto também tem como propósito produzir deslocamentos simbólicos, contribuindo para a despatologização e o reconhecimento das identidades trans. A história pessoal de uma das pessoas entrevistadas na pesquisa “Entre a política pública e a linguagem dos direitos: compreendendo modos de subjetivação na experiência de representantes de movimentos sociais na articulação de ações públicas em áreas vulneráveis da cidade de São Carlos”, que iniciou seu processo de transição no mesmo período em que passou a integrar a equipe, evidencia como práticas coletivas de articulação política podem se entrelaçar de modo intenso à constituição da subjetividade e à construção de formas de existência menos precárias.

As entrevistas revelaram a experiência mais explícita de tensão entre as linguagens dos direitos e políticas públicas. Vivências relatadas evidenciaram o contraste entre o direito ao cuidado digno e a prática institucional, muitas vezes excludente. Do ponto de vista subjetivo, as narrativas relataram que a participação no projeto fortaleceu as identidades políticas dos sujeitos e consolidou o compromisso com a produção de práticas mais inclusivas na saúde.

Naldeia – Núcleo de Ação Libertadora Decolonial e Estudos de Indiagem Abiayala

O coletivo surgiu a partir das queixas de estudantes indígenas da UFSCar, frente à ausência de indígenas nos programas de pós-graduação da Instituição. Seu principal objetivo é, assim, “aldear” a pós-graduação da UFSCar. A proposta é preparar academicamente e incentivar os estudantes indígenas a participarem dos processos seletivos da pós-graduação, além de promover o diálogo com a Instituição na reivindicação por políticas específicas.

A atuação do grupo se justifica pelo reconhecimento de que os estudantes indígenas não partem do mesmo ponto de partida que os demais. O Naldeia surgiu, também, como resposta à invisibilidade histórica dos saberes e epistemologias indígenas no espaço acadêmico. A motivação principal é ser um espaço de pertencimento, acolhimento e formação crítica.

O Naldeia articula-se a políticas públicas de ações afirmativas, mas também se coloca como espaço de crítica e contestação, uma vez que reconhece os limites das iniciativas institucionais que, muitas vezes, reproduzem hierarquias epistêmicas e barreiras simbólicas. As entrevistas com seus coordenadores realizadas na “Entre a política pública e a linguagem dos direitos: compreendendo modos de subjetivação na experiência de representantes de movimentos sociais na articulação de ações públicas em áreas vulneráveis da cidade de São Carlos” revelaram como a experiência de participação no coletivo se converteu em um processo de revisão de práticas pedagógicas e de elaboração de uma postura decolonial. 

As análises realizadas indicam a força das reivindicações por reconhecimento e pertencimento no campo da produção do conhecimento. A política pública de ações afirmativas aparece na narrativa como campo ambíguo: se, por um lado, viabiliza a entrada de estudantes indígenas na Universidade, por outro, é vivida como espaço de tensões, burocracia e exclusão simbólica.

A ação do coletivo envolve tanto a produção de conhecimento autoral quanto o acompanhamento dos estudantes em suas trajetórias acadêmicas. Do ponto de vista subjetivo, os depoimentos indicam como trajetórias foram transformadas pela experiência no Naldeia.

Pão Fraterno André Luiz

Trabalho voluntário que teve início em 1996, inspirado em ações assistenciais realizadas por grupos religiosos, e se mantém ativo desde então, todas as sextas-feiras, com foco no atendimento a pessoas em situação de rua. A ação envolve a preparação e distribuição de alimentos, kits de higiene e roupas. O grupo também se propõe a oferecer um momento de escuta e acolhimento, e divulga informações úteis às pessoas atendidas, como ações assistenciais de outras instituições, orientação sobre atendimento em saúde, além de conversar sobre demandas emergenciais. As campanhas se mantêm exclusivamente por meio de doações e iniciativas próprias, sem vínculo ou convênio com instituições públicas ou privadas.

Diferentemente dos movimentos orientados por reivindicações políticas explícitas, o Pão Fraterno organiza-se em torno de valores éticos e espirituais. Seus membros enfatizam que não pretendem substituir o papel do Estado, mas tampouco baseiam sua prática na expectativa de articulação com políticas públicas. A ação cotidiana é guiada pela convicção de que pequenos gestos de solidariedade podem fazer diferença na vida de quem enfrenta a violência da pobreza extrema.

A experiência do grupo ilustra como iniciativas autogestionadas podem operar fora dos repertórios clássicos de cidadania, sem por isso perder relevância social. O grupo se organiza como rede voluntária de solidariedade alimentar, e a linguagem dos direitos comparece apenas de forma indireta; a narrativa predominante é a de uma “missão ética” fundamentada na compaixão. As pessoas entrevistadas destacaram que o projeto não possui formalização jurídica nem vínculo direto com políticas públicas, funcionando de maneira autônoma, com apoio exclusivamente de doadores e voluntários.

Em termos subjetivos, a ação no Pão Fraterno produz uma forma de subjetivação centrada no autocuidado espiritual, na valorização da humildade e na construção de pequenos laços de pertencimento com os beneficiários. Ao mesmo tempo, o reconhecimento das limitações materiais do coletivo alimenta sentimentos de insuficiência e a percepção de que se trata apenas de uma resposta pontual a problemas estruturais.

Grupo (de WhatsApp) do ônibus 53

O grupo de WhatsApp do ônibus 53 representa outra forma de ação coletiva, mais pragmática e circunscrita a um problema cotidiano. Seus representantes contaram que a ideia surgiu como uma brincadeira: estudantes que pegavam diariamente o mesmo ônibus decidiram criar um grupo virtual para trocar informações sobre horários e rotas. Com o tempo, a brincadeira se transformou em uma rede de apoio que otimiza a rotina de deslocamento, sobretudo em horários de grande fluxo.

Ao longo do tempo, o coletivo adquiriu regras próprias de convivência e modos informais de autogestão, sem qualquer expectativa de institucionalização. Ainda que não reivindique políticas públicas ou direitos, o grupo cumpre uma função relevante no cotidiano estudantil e demonstra como pequenos arranjos colaborativos podem gerar práticas de cuidado coletivo. Para seus fundadores, a experiência significou aprendizado sobre organização, construção de pertencimento e realização pessoal ao perceber que um gesto simples podia beneficiar muitas pessoas.

A linguagem dos direitos não aparece de maneira explícita nas narrativas colhidas na pesquisa “Entre a política pública e a linguagem dos direitos: compreendendo modos de subjetivação na experiência de representantes de movimentos sociais na articulação de ações públicas em áreas vulneráveis da cidade de São Carlos”, tampouco há referência direta à política pública como objeto de disputa.

As pessoas entrevistadas destacaram que a experiência trouxe aprendizado sobre organização de grupos, gestão de conflitos e práticas de convivência digital. Apesar da ausência de uma agenda política explícita, é possível identificar, na experiência desse grupo, a produção de subjetividade centrada no senso de pertencimento, na validação comunitária e na construção de microespaços de solidariedade cotidiana, na qual a atuação política não é nomeada, mas emerge transversalmente.